sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A neurociência da ilusão

Demos a volta a quatro mortalhas sem saber muito bem a que temperatura se imola o papel; sem saber muito bem de que cor se acendem os teus olhos. Sem saber muito bem a quem pedimos clemência quando erramos. E depois damos voltas sem que os sapatos saibam onde vão terminar; sem que as nuvens chorem à nossa espera. Sem que os cigarros se apaguem violentamente nas nossas peles.
Ó amor, quantos de nós existem para sacrificar ao vento? E quantos cabelos, e quantas peles, quantas vozes; quantas de ti, quantos de mim, quantos de nós. Suspiraria se assim não fosse; afinal a produção morre onde quer que acabem os corpos. E já não estamos vestidos: vestidos de nós, vestidos de seda, vestidos de cetim espalhados pelo chão do quarto; e o que tinhas já não é só meu: agora está espalhado ao mundo, p'ra quem quer que olhe de cima, de lado, de frente, como grãos de areia na costa que desemboca à minha porta.
Toma um pouco do meu café, toma as minhas mãos nas tuas mãos. Toma-me os dedos pelos cabelos. Diz que me vais saudar no dia em que partires deste local, no dia em que partires esta barreira, no dia em que partires deste sentido; e depois ver-te-ei desnuda do outro lado, à espera que amanheça.
É que em ti começa tudo e eu nada sei; nada peço, nada invento.
Limito-me a fumar o meu cigarro à espera que tudo adormeça.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ignis.

Falta-nos sempre um isqueiro.

Faz-nos falta fogo; depois água que o apague, e um pano que seque a água.

Que nos acendam os cigarros; que nos encham o copo com sempre mais um pouco.

E, posteriormente, quando formos sós, que as cortinas nos apaguem a luz.

Quando deixaremos nós de fazer sentido?

Entristece Selene que por nós espere;

Continuo, contudo, dizendo, que o ideal me comanda

E que nunca me peças que não me dê a ninguém.

Compreende, assim, que nada é teu

E eu tenho pouco que faça sentido para te oferecer.

Ignora a ilusão que te comandou a vida durante décadas:

É que o mundo não foi feito para nós.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O amor é isto e muito mais

Inspirado pelo relógio das treze:

O amor é:

  • Não haver polícia - Fica para o Zé.
  • Olhar pela varanda;
  • Dormir pelos umbrais;
  • Isto e nada mais - Ditto.
  • Nadar pelo Tejo;
  • Invocar Lisboa
  • Não saber o que mais dizer;
  • Trocar notas por moedas;
  • Fumar tabaco de maços alheios;
  • Tratar alguém pelo nome próprio;
  • Rejeitar a mão pelos cabelos;
  • Pegar fogo a cartas de amor;
  • Esvaziar uma garrafa de amarguinha;
  • Dizer parvoíces por não saber o que dizer;
  • Não acabar recensões críticas
  • Deixar de fazer sentido.

sábado, 27 de outubro de 2012

Se dormisses à beira do rio, faltavam-te os sonhos

Se dormisses à beira do rio, faltavam-te os sonhos.
E o que ficava seria pouco para te embalar as vontades;
Ficava vento roçando-te o peito, o frio a queimar-te as faces
E as águas abraçando-te ternamente a mão despida.

Se eu te beijasse as pálpebras enquanto dormes:
Tomar-me-ias por outrém ou anuías docemente;
E, se eu te descobrir por entre as folhagens,
Prometes-me que amas Lisboa como se fosse tua?

E se um abraço fosse tudo, ou quase nada
Davas-te aos braços em acordes de violino
Ou observavas as estradas mortas de breu
Enquanto redescobrias as ossadas dos meus ombros.

Olha, Selene, já não temos quase nada;
Pouco restaria já do cadáver triste que amanhece.
Florescem agora em mim outras aldeias,
Outras florestas, outros abismos,
Que não se compadecem dos que me deixaste
Sonhar em magnésio de ondas calmas pela noite.

E depois, onde jogávamos este tabuleiro
Que se gasta enquanto gastamos os verbos?
Onde nos encontrávamos novamente
E os dedos se entrelaçavam por entre os cabelos
E as vozes se sobrepunham uma à outra,
Numa batalha de espíritos ausentes.

Meu anjo, já não nos sobra nada:
Nem os navios, nem os mares, nem o cais
Nem as covas, nem os raios, nem os silêncios;
Quanto tinhas tu para dar, enquanto me fazia gasto?
E, tempos volvidos, é ver-te dissolver ao vento
Como ídolos feitos de espuma e gesso.

Apetecem-me as alturas

Apetecem-me as alturas,
Sofregamente;
Da mesma forma
Que os pedaços
Cortam cabelos
E os dedos
Se fazem tarde.
Olharia pelos cantos,
Enquanto a noite
Teima em chegar.
E, volvidos segundos,
Revolvem as folhas
Pelo vento.

Meu amor,
Diria que o tempo escasseia.
Nem as árvores
Apodrecem
Enquanto gastas palavras;
Nem os pássaros
Chilreiam
Enquanto pisas rochas;
Nem as águas
Correm
Enquanto o mar esquenta;
Nem os teus olhos
Brilham
Por entre a floresta.

É dessa mesma forma
Que se procede tudo:
Quanto mais tenho por falar,
Menos a voz se apresenta.
Mulher,
Não me fales de amor:
Inventas moralismos
À espera que creia
Que podes existir
Noutra dimensão qualquer.

Deixa que o Inverno chegue
E dá o peito às gotas
Que escorrem pelas folhas.
Ilumina as ruas
Como se fosses
Luz vaga,
E interior.

Meu amor,
Diria que escasseamos.
Nem os passeios
Nos suportam
Os passos ausentes;
Nem as nuvens
Chovem
À nossa passagem;
Nem o Mar
É nosso
Como foi no passado;
Nem as minhas mãos
Esquentam
À beira das tuas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Do Que se Não Tem, Tendo - Parte I


«Ouça, faz-me falta o calor.
É urgente amar, é fulcral gritar-se palavras ao infinito, em aparente loucura.
Eu até prefiro a noite ao dia, e doutra forma não faria sentido.
Gosto do som das lâmpadas zumbindo, e da minha sombra reflectida nas fachadas dos prédios. Em certa extensão, eu sempre fui narcisista, mas encontrar-se algo maior do que nós tem o seu peso e revemo-nos, noutra perspectiva - ou pelo menos devia ser assim.
Compreenda-me, eu não sou rico, nem particularmente fantástico, nem tenho muito para oferecer senão palavras e gestos, mas até estes últimos são erróneos e fazem-se gastos. Na verdade, eu nunca soube dividir-me; talvez por isso nunca me tenha sido verosímil aquela ideia das laranjas cortadas a meio. É essencial cada um ser um e juntos formarem dois; se ambos forem meio, invariavelmente, a balança pende para um dos lados, e cai, e parte-se.
É disso que tenho receio, dessa quebra, como se existisse um desencontro: salta um gomo à peça de fruta e depois ninguém parece saber encontrá-lo.
Atente nos sinais mais básicos de exposição e verá que faz algum sentido, ao contrário do todo.
Pedi um tempo a mim próprio, para equilibrar os meus sentidos. Houve e há tanto que liga as pessoas, tanto mais do que as separa.
Até prezo a diferença, sabe, mas finjo que não e nem entendo porquê; o que sucede, é que os olhos verdes já me não seguem para qualquer lado que vá e isso, intriga-me. Afinal de contas, o que nos é conhecido deveria, logicamente, ser-nos mais agradável e, contudo, nem sempre é assim.
- Perde-se na narrativa e, por este andar, ainda me embala antes de jantar.
Sigo, portanto. Sabe que agora é Fevereiro; e, contudo, há um ano atrás, Fevereiro tinha mais sabor.
Lisboa é diferente quando se está apaixonado: não é cinzenta, nem de rocha. E os meus olhos até são castanhos, e é como se florescesse ao nosso olhar.
Nesse tempo, eu ainda escrevia cartas a contar-lhe do amor que me envolvia. Já não as escrevo, porém. Não porque o amor se tenha deslocado, não julgue, mas apenas porque sei que não teria o mesmo impacto. Nesse contexto, revejo o meu pequeno postal de Nietzsche e, realmente, vejo que nenhum de nós soube alguma vez escrever cartas de amor, mas o pouco que fomos aprendendo chegava para suprir as vontades dos nossos suspiros.
É como lhe digo:

- O amor, à deriva, é um lugar estranho.

E, no entanto, estabelecido, é como campos de trigo a ondular com Helios, ou bandeiras danças a ulular ao vento.»

domingo, 21 de outubro de 2012

Whatever you may be

Today, I feel like breaking the bounds of my own comprehension.
To be honest, I never felt like writing in english. I must heed this will; it'll sound better, maybe. I don't really have a problem of expression in portuguese and I don't feel like everything sounds a little bit better in this silly language.
Nevertheless, I'll give it a try. It sounded awful whenever I opened myself to you in our own language. You hated it; I hated it also. It doesn't even stand a chance. We don't stand a chance, in this wind of change. You've made your choice, and I've never made mine. I couldn't make mine. It was never possible for me to choose anything; you would refuse to let me.
In other hand, I'm not quite sure of my own choice. Maybe it is better this way, your own path seems to be a little bit more secure; the rain that falls on my shoulders isn't clear at all. And, actually, my silence is not that perfect; that's why I'm a night type kind of person, but that's something you'll probably never know.
Keep in mind that I'll probably be a little bit more secure now. A little bit less open. A little bit less sincere. I don't really think you've lost anything, though I wouldn't bet you won anything either. Neither do I think it's your responsibility. You are what you are. What the world made you to be, even though you don't give a crap to the world's opinion on its own. You are whatever you want to be.
Honestly, I won't try to change your opinion; I know you wouldn't try to change mine either.
But, be sure to hold still, and look at the starts. They'll tell you what to do, whenever you feel lost.

Et jamais oublie mes paroles.