quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Urgência

Tudo tem tempo:
As árvores as casas a chuva e as pedras.
Como se a Providência se limitasse a tudo,
E a nada.
Tudo existe, definidamente.

As cores têm tempo,
E os passos.
Os candeeiros e os pilares têm tempo.
O café e o chá têm tempo.
Até os mortos têm tempos;
Depois fazem pó.

Só eu é que não tenho tempo.
E passo pelas árvores pelas casas pela chuva pelas pedras pelas cores pelos passos pelos candeeiros pelos pilares pelo café pelo chá pelos mortos
E nada arrefece.

Os animais têm tempo;
As crianças, essas,
Têm todo o tempo do mundo.

Os outros também,
E existem.
E exaltam-se.

O bêbado que dorme enrolado no cobertor da esquina tem tempo,
E a senhora que o olha com desdém,
Também.

Só eu é que não tenho tempo,
E adio-me.

As flores têm tempo:
Abelhas obrigam-nas a procriar antes que esmoreçam
O poder tem tempo,
Tempo rotativo.

As monções, a oeste, têm tempo.
A sul, Helios, tem tempo.
Até recentemente se descobriu
Que o gelo, a norte, tem tempo.

Eu é que estou sentado à janela,
E o espelho reflecte-me a falta de tempo.
Olho para o mundo e é como se todomundo tivesse, acima dos cabelos, uma cronologia.

O próprio tempo tem tempo:
Confunde-se com o espaço.

O mar tem tempo,
E os peixes também.
Mesmo quando morrem
Vêm outros peixes
Tomar o seu lugar.

O leito dos oceanos tem tempo,
E os corais não mudam de cor.

As aves têm mais tempo:
Não são gente.
Cada ave não contém, em si,
A essência de ser única.
Todas as águias são só uma águia:
Assim, uma só águia tem tempo.

Os cães tresmalhados têm tempo.
Todas as raivosas bestas são sempre iguais,
Só amarelam com o tempo.

Eu é que sou urgente:
Não tenho tempo.
Quisesse ser mar ser peixes ser o leito dos oceanos e os corais ser aves ser águia ser cão ser amarelo
E não podia!

Em mim, já não corre água
E só esta seca, com o tempo.
É urgente, que faça de mim,
À parte do tempo:

Um outro tempo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fa(c)tos


À parte dos meus sapatos, serei sempre um fato:
Tecido enegrecido, e meia dúzia de botões de plástico.
Se não fosse isto, não seria mais nada,
Nem sangue nem sede nem ordem nem árvores nem pedaços de vida.
Toda e qualquer filosofia estancou no tempo,
À procura de um silêncio menos profundo.
Nem trapos, nem farrapos, nem sono,
Não posso querer ser tudo; nem devo volver-me a nada.

Olho à minha volta, e compreendo que somos todos fatos:
O jovem banqueiro tropeça na gravata cor-de-rosa.
A rapariga dos calções curtos toma café na esquina,
E o cão repousa na calçada preso ao candeeiro.
A cabeleireira acabou de pintar as raízes, e já vem de dentro para fora
E os sapatos do taberneiro estão gastos, e ressoam.
À parte disto, nada mudou;
Nem os dedos nem as chances nem os sopés das montanhas nem os mares ao infinito nem o sol a brilhar em dias de chuva nem a chuva a cair em dias de sol nem o arco-íris a desenhar-se aos ventos nem as metáforas nem as mesas de café nem as madeiras das mesas nem os pés dos transeuntes nem os pneus das motorizadas nem o silêncio à porta de casa.
Em suma, somou-se o que houve,
E depois, nada.
Nem o ruído, mas, enfim, os braços.

Sumiu-se me a cinética inteira,
Varreu-se, e nem os lixeiros a vendem.

Bati à porta três vezes e nem o postigo se abriu, nem a velha vizinha me dava os bons-dias com o crucifixo ao peito.
Ela não é um fato: anda sempre de avental.
A criança veste o bibe num cerimonial quase avarento, estudado enfim, e o meu fato coçado dá-me impressão de já acinzentar com o uso.

Deito-me ao relento, e puxo um cigarro.
Contudo, nada sucede.
Nem as mágoas se esvaem nem os barcos cruzam o Tejo nem a erva se esbulha nem o isqueiro se acende,
E, dantes, quando puxava dum cigarro, o meu fato despia-se doutro fato que me acendia o papel.

É como se não houvesse lume para dar, e os fatos não tivessem lume;
A chama aliás, não tem pensamento algum,
Nem Prometeu prometia a filosofia do fogo.
E, contudo, apagou-se, como se a brisa varresse os silêncios do cume das terras dos antros das cidades dos arcos de Lisboa da augusta calçada;
O lume não ficou.

Apagou-se, e dava-se a conhecer, como se me pedisse água antes.
Se lhe pudesse ter respondido, diria que não me cabe no fato uma garrafa de água e não tenho nada por debaixo dele, nem água nem sal.

A rapariga dos calções curtos pousou a chávena e libertou o cão da prisão das luzes e o cão abanou o rabo e a rapariga baixou-se para lhe fazer festas e os calções subiram um pouco e eu olhei.
Talvez ela me pudesse acender o cigarro, ou valer-me como cinzeiro durante largos momentos, eu emprestava-lhe o fato e redescobríamos ambos o lume nas suas mãos.
Mas não: antes suspirei, desviava o olhar e seguia em frente.

Não sei vestir o que fato que trago despido, nem despir o fato que venho vestindo.
Se soubesse, atirava-o aos carris.

Não há filosofia nos homens de fato.
Só a escuridão do tecido enegrecido, e meia dúzia de botões de plástico,
Nem os sapatos de quem se imagina.
O meu fato cinzento nunca foi preto,
O dono do café da esquina faz-me sinal,
Acende-me o cigarro e eu não sei fumá-lo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Lisboa Antiga

Dá-me a volta, como se dá a volta ao Mundo, e faz-me ver os horizontes que ficam p’ra lá das portas fechadas, e das portas abertas, cola-se ao vento o sussuro dos Deuses ausentes; Deus quis que a terra fosse um dia o terreno dos homens e fez-se, luz eterna ao criador. Amor, amor por entre os receios das vidas

Amor, amor às solidões infinitas, aos abraços desesperados à porta dos cafés, aos olhos verdes a verter gotas de ausência

Amor, amor a raiar nas paredes, a cortar os caminhos;

Quanto silêncio se faz por entre o turbilhão de odores e o ruído perpétuo jaz em toda a parte.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Lisboa Nova

Céus de Lisboa, nasce o deserto na expansão territorial que fica entre a popa e a proa e cada vez mais perto, e tão mais perto,
Chora o Homem, nascem as ondas; Quis que fosse assim e Fez-se, desfez-se na espuma dos molhes,
Ontem foi rio, hoje é leito seco; luz em sonhos de marfim, onde se perde o condão à vida.
Dizia-se dantes que lá longe principiava o caminho: das trevas ao sangue novo se desalinham os tremores, ao invés de se comporem
Faz-se sombra pela areia e depois pelas rochas fora, fora da montanha de traços nas peles alheias
E nessas é feito ebúrneo o que alvo fora segundos antes, nas peles de estranhos e ventres escondidos
Dentro do peito, vazios corpóreos mil anos, vapores de cinza ao redor de trapos.
Sede, e ide beber às fontes; sonhai que o Outono são mil dias antes da Primavera
Nenhures, antes das flores nada nasce.

Lá fomos em rubras horas ao pontão de Lourenço esquecido

Lá vamos cantando e rindo, dizia o coronel ao capitão que de espingarda na mão dava bênçãos aos soldados e dizia-lhes baixinho vai lá p’ró outro lado do mar e vem numa caixa de pinho eu vou atrás e limpamos turras, limpamos o que vier; filas e filas intermináveis no pontão que dá aos cais, o do sodré, de Belém e caravelas sem castelos ancoradas à espera dos príncipes que partem para morrer em Angola e crianças choram pela mão das mães, crianças de vinte e um anos sofrem os males da guerra sem a conhecer ainda ao pé, filhos da puta, filhos da puta diz o sargento da perna de pau, filhos da puta que mentem aqui ninguém dá a vida pelo país, uns vão pela fama mal afamada e outros à espera de benzer o crucifixo na terra de ninguém, nenhures n’algures, Deus tenha piedade de vós grunhe o padre que nunca verá areias negras em Cabo Verde. E o sargento chorando por dentro lá admite quantos mais à barcaça, mais é sempre melhor, uns beijam a testa das mães, adeus e até ao meu regresso, mas que regresso elas dizem Mas que regresso tens tu, meu filho, e agora são só meia dúzia de milhares de nome num monumento erguido aos céus ao pé da Torre, onde ilustres partiram a desbravar os caminhos em que outros quatrocentos anos depois faleceriam. Presos, presos foram pelos pides, fugir é tema tabu enquanto outros de livre vontade escolhem a noite sem fim de África. Morre o povo e o outro povo, brancos e pretos numa batalha pela terra de uns que afinal é de outros, Portugal não é pequeno, Portugal vai dos Açores à Rússia, à custa de meia dúzia de milhares de vidas deitadas fora em areais de vulcão sujo; Portugal é grande, diziam, Lusitânia das nossas paixões onde os caixões voltavam às vezes sabe-se lá com o quê dentro; os garrotes não chegavam para estancar perdas de braços nem pernas que ficaram feitas em pó no pó das estradas de cabras; O branco veio e bateu no povo, eles que o sabem, o branco bateu em nós e nos nossos avós e nós morremos aqui hoje, pretos enfim, e connosco vão quantos brancos pudermos levar, quantos couberem no gume da catana. E o branco vai e procura a morte em prol da sorte de outros brancos, em prol da vida e prosperidade de outros que nunca foram brancos mas vieram da terra dos pretos com dinheiro para não ter cor de pele, quiçá sejam verdes da cor do escudo mas no meio de tudo quem vai sofrendo é o filho, filho, Filhos da puta que Deus sabe lá porquê, manda em caravelas sem castelos morrer onde Judas perdeu as botas.
Lá vamos chorando e rindo, cantando cantando enfim, e as tubas ressoam no ar, meia dúzia de clamores com fim, regressa e faz boa viagem diz a velha dos trapos entre lágrimas, Maldita a hora desdiz o soldado, soldadinho de chumbo e de pinho, feito merda nas areias negras, os pretos vão subindo as ladeiras com as mãos fora das algibeiras, acostumados ao clima hostil; o mosquito pica o branco e pica o preto, infecciona-os sei lá porquê, deixa-os morrer à torreira do Sol que jaz à volta do Tarrafal, quais pormenores, pormenores e vidas, palavras que não se coalizam. Eivados de orgulho de viseira em punho, as mãos em riste à torreira do Sol, deixa-me que te diga, África não é nossa. Angola nunca foi nossa nem deles, dos que enviaram o filho do povo à procura da sorte em salinas perdidas no Huambo nem nunca foi do outro em São Bento que caçava almas em prol de meia dúzia de armas que produzia em Xabregas. Não, Portugal não é pequeno, nem é na pequenez que assusta a vetusta astúcia que produz. Antes, Portugal vai daqui à Rússia, dos Açores quase à Crimeia mas na teia se perdem vidas que nunca foram. Pátria, Pátria amada, luxo que nunca foi luxo de ser português ou não; Hei-de ver terras de Espanha e mostrar-tas, uma espécie de Bartolomeu à maneira Nova, Estado Novo entre terras velhas, Novo Estado e novas loucuras.

sábado, 29 de janeiro de 2011

À beira do riacho que corria nos abismos do mundo a verde tingido num untar desnudo de qualquer sofreguidão bebo eu a água da profissão inquieta por entre os telhados de vidro dos idiotas que atiram pedras de hóstias ao vizinho da esquina, ao lado custa demasiado esticar um pouco menos o tendão e surripiou o caixilho da janela na loja de ferragens da rua paralela.
À beira da ara jaz quem um dia foi só seu à espera de que pudesse em fim dar-se a alguém sem que ninguém realmente desejasse essa bênção, se ninguém é quem queria ser sou eu quem se ajoelha à beira da ara e a toca com um tacto quase morno como quem espera dar-se a algo de forma realmente mais velhaca do que se dá apenas por prazer, apenas por precaução se corre lateralmente e se mira por cima do ombro à procura do cadáver que nos persegue, a correr à velocidade da luz ou da lesma, pouco importa à criação apenas que sejamos só nós, um dia só nosso à espera de cair nos abismos do mundo num untar desnudo de qualquer sofreguidão.
À beira dos socalcos nascem as vinhas faz hoje quarenta anos de quaresma maldita onde o riacho de fim de mundo vem desaguar e galga as margens com uma violência quase imatura, arrastando a ara no seu caminho untando a terra de vinho e se fazem tarde as plantas que alguém plantou à beira dos moinhos, se faz tarde tudo se caminhamos sozinhos pelos caminhos que desaguam despercebidamente à beira da água do desejo indiscreto, à beira dos socalcos de fim do mundo que por si só significam a labuta de quem discorre sobre nada nem pouco mais ou menos, ainda que pense sobre tudo.
Sabe como é, mudam as ideias e os talentos e nós ficamos na mesma à espera que tudo aconteça à beira de qualquer coisa sem acontecer nada. Depois lá vem a velhice e falecemos no lugar inquietas marionetas que esperam por tudo sem esperar nada de ninguém. Sabe como é, se todos fôssemos quem queremos ser não havia inveja em ninguém e deixavam de fazer sentido as maçãs sumarentas e os medronheiros à beira da estrada. Se o alcatrão estala ninguém se apercebe mas quando é o osso todo o mundo parece girar à volta de um antigo crânio desfeito em nada e precisamos tanto de ruas para caminhar, mas provavelmente seríamos capazes de sobreviver sem encéfalo. Sabe como é, mudamos tanto para nunca mudar esperando por uma vinda que nunca volta e às vezes refugio-me nas penas que guardo perto do pisa-papéis e molho-as em tinta só para dizer que é sangue e que ninguém entende o que escrevo.
Percebe agora porque é tão premente que mudemos, se o que eu quero é tão-somente descortinar essa barreira que nos transforma numa corrente de luz ao redor de átomos sem carga iónica, na verdade eu sou alguém que queria ser e a verdade é que isso faz de mim menos que tudo ao meu redor; nada tenho que esperar nem que a vida me altere conquanto altera tudo quanto se move, faz falta viver não é dizia o mercador ausente à mulher de bicos de pés e apalpava os melões
- depressa que se põem maduros, homem
e lá ia ele sujando os sapatos à sua maneira e eu a observar e a perguntar o que me fugia à compreensão.
À beira do Tejo vamos tendo este tête-a-tête e a verdade é que quanto mais vejo verde mais me apetece fugir com o cabelo ao vento no abraço de inquietude ausente com a sensação de que se ao menos fugirmos do que nos persegue talvez nunca precisemos de correr lateralmente a olhar por cima do ombro.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011